Por Felipe Pontes - Revista Época - Ed.771 - 04/03/2013
O físico Leonard Mlodinow, autor de "Subliminar", diz que ainda
estamos muito longe de compreender o inconsciente como um fenômeno
físico
ÉPOCA – Nós vivenciamos mais o mundo mais pelo inconsciente que o consciente?
Leonard Mlodinow – Sim. A quantidade de energia do cérebro que
está funcionando em processos inconscientes é maior do que nos
conscientes. A energia usada pelo cérebro por alguém que está se
concentrando profundamente é quase a mesma que a de uma pessoa deitada
no sofá, sem fazer nada. Isso mostra que o cérebro está trabalhando duro
o tempo todo, mesmo quando você está sonhando acordado, com a mente
limpa. O pensamento consciente não toma tanto da capacidade do cérebro. A
maior parte dele é inconsciente, principalmente porque há muitos
processos fisiológicos que são coordenados inconscientemente, como as
batidas do coração e respiração.
ÉPOCA – Os pesquisadores conseguem apontar quando processos inconscientes se tornam conscientes?
Mlodinow – Os processos inconscientes e conscientes são todos
interconectados. Um alimenta o outro. Não é fácil separá-los. Imagine um
cientista que está tentando resolver um problema de física bem difícil.
Após se frustrar e não conseguir resolvê-lo, ele esquece aquilo e vai
correr ou tomar um banho. Subitamente, quando está no meio do chuveiro
ou no parque, uma solução lhe vem à mente. No fundo, seu cérebro estava
refletindo profundamente naquilo. Seu consciente estava considerando o
problema e o inconsciente trabalhou em cima dele. Tudo é conectado. E
essa interconexão é complicada de destrinchar.
ÉPOCA – O que mais lhe impressionou durante a pesquisa para fazer o livro?
Mlodinow – Uma condição chamada “visão às cegas”. Muito do
nosso processamento de informação visual é inconsciente. Seus olhos,
retina e nervo óptico gravam uma imagem que é interpretada por certas
partes do cérebro até chegar a você. Eu fiquei chocado com o caso de um
paciente que teve um infarto que liquidou a região cerebral que envolve a
parte consciente da visão, mas não afetou a parte inconsciente. Aquele
homem tinha todas as ferramentas para processar uma imagem, mas seu
cérebro não conseguia interpretar conscientemente aquilo. Em outras
palavras, ele não conseguia ver nada. Mas conseguiu, num experimento
famoso, desviar de obstáculos de um corredor porque a parte inconsciente
da sua mente estava automaticamente o alimentando para evitar alguma
colisão. Há pessoas que são cegas, mas possuem uma visão inconsciente
pela qual não estão cientes. Eu descrevi aquela pesquisa no livro porque
achei isso muito contraintuitivo. É difícil de imaginar que algo assim
existe.
ÉPOCA – A mente subliminar serve como um mecanismo automático de sobrevivência?
Mlodinow – Sim. Ele é pura sobrevivência, uma questão
evolutiva. Desviar de obstáculos, sentir fome, vontade de reproduzir,
medo de situações ou barulhos estranhos são instintos de sobrevivência. E
todo animal precisa disso para sobreviver, mesmo que de maneira
inconsciente. Pensamentos conscientes, como escrever um romance ou
investir dinheiro não têm propósito evolutivo.
ÉPOCA – É possível dizer que isso afeta nosso livre arbítrio?
Mlodinow – Seu consciente toma decisões. Mas está sendo
alimentado pelo inconsciente. Só que você frequentemente você não está
ciente das impressões. Para mostrar meu ponto, eu menciono no livro um
estudo onde as pessoas compravam mais vinhos franceses quando ouviam
música francesa e mais vinhos alemães quando escutavam músicas alemãs.
Ao comprar um vinho, uma pessoa pensa em critérios como a uva, a região
ou o que comerá no jantar. Mas não imagina que algo como a música pode
mexer tanto com sua decisão.
ÉPOCA – Que escolhas nós tomamos inconscientemente todos os dias?
Mlodinow – Ir ao trabalho. Você vai no piloto automático. Vira
à esquerda e direita sem pensar. Comer. Decidir o que comer. Aquele
salgado, aquele doce. Basicamente, qualquer decisão que você tomar. Há
influências por trás que ajudam a determinar o que você pegar. O pacote
vai ajudar a determinar. Por exemplo, fizeram um estudo onde deram às
pessoas diferentes cores de caixa para detergente. Depois de usá-lo por
um mês, os pesquisadores pediram para cada “cobaia” avaliar o produto. A
cor da embalagem tinha um efeito nítido em como as pessoas determinavam
sua efetividade. Só que todos detergentes eram idênticos. As pessoas
preferiam a caixa. É claro que os publicitários sabem que o pacote tem
um apelo forte no produto. O que não significa que você pode ser 100%
manipulado. Apenas mostra que pode ter certo efeito.
ÉPOCA – O pensamento consciente e o inconsciente podem entrar em conflito?
Mlodinow – Sim. Você não faz tudo o que racionalmente deseja
ou planeja. O maior exemplo disso é o gasto com cartão de crédito ou
dinheiro vivo. Pessoas com cartão gastam quase duas vezes mais porque
não “sentem” o quanto estão gastando. A mente subliminar faz o dinheiro
do cartão de crédito parecer menos. Ideias conscientes podem se chocar
com sentimentos inconscientes.
Prezadas e Prezados, qual o impacto das questões levantadas aqui na construção de um personagem?