segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Série 'Clandestinos', da Globo, mostra novos caminhos para a TV


Por Mauro Trindade - Terra TV - 14/11/2010

Há uma certa ideia de que a dramaturgia na televisão deva ser naturalista. Isto é, que os atores devam representar da forma mais próxima possível da vida real, sem grandes arroubos emocionais, sem exageros na gestualidade ou na expressão corporal. Clandestinos - O Sonho Começou, série escrita e dirigida por João Falcão que, desde a semana retrasada, a Globo exibe, reduz a poeira esta concepção.

Como a televisão trabalha muito com planos fechados e closes, faz sentido pensar que a ênfase dramática do teatro - visto de longe por dezenas de pessoas - tenha de ser abrandada. E, já que na TV a maior parte do corpo desaparece na maioria das cenas, a expressão corporal precisa ser mais leve.

Daí as cenas televisivas serem bastante estáticas - à exceção das externas de ação. E, por isso mesmo, há tantas cenas à mesa em novelas. Mesmo o mais miserável dos personagens toma café da manhã de hotel cinco estrelas. Com todo mundo em volta de uma mesa de cozinha, a movimentação fica reduzida e os diálogos podem transcorrer sem maiores problemas de deslocamento de câmeras e de enquadramentos.

Clandestinos é a história de jovens interessados em participar de uma peça teatral e que se submetem a um teste classificatório implacavelmente curto. Pelo tema, que permite planos gerais que exibem todo o corpo dos personagens no palco e pela faixa etária dos atores em papéis de jovens, é possível uma atuação mais carregada. O que, em outros contextos, tornaria-se "overacting".

A presença de novos atores, formados por uma escola tão diferente das oficinas de atores de TV, também imprime diferenças na maneira de ser e de agir destes 17 novos talentos, entre eles, as gêmeas Giselle e Michelle Batista.

João Falcão reconta essa velha história do teatro, a do aprendiz e seu sonho de reconhecimento e estrelato, que pode ser encontrada em peças famosas como Odeio Hamlet, e filmes conhecidos e tão diferentes entre si quanto Cantando na Chuva e Fama. E até mesmo o programa de TV Ídolos.

De certa forma, Clandestinos retoma para a ficção o que o reality show havia roubado: o retrato do artista quando jovem, sua intensidade emocional e a explosão, em poucos minutos, do esforço da formação, da vivência e da paixão de um ator. Em recente depoimento, o ator Diogo Vilela reiterava que o teatro não é uma imitação da vida, mas matéria-prima feita na hora. Algo dessa força vital acaba de ir para TV.

Prezadas e Prezados, dêem suas impressões ao ler a notícia e sua opinião sobre a questão da 'naturalidade' da TV.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Personagens da vida real





Por Livia Deodato - Revista Época - Ed. 586 - 08/08/2009


O novo filme de Steven Soderbergh anuncia as Confissões de uma garota de programa. Não há, no entanto, uma única cena de sexo. “Não foi proposital. Eu não tinha ideia de onde esse filme iria nos levar. Esperei para ver como ele se desenvolveria por si só”, diz em entrevista a ÉPOCA, por telefone, de Los Angeles.

Se um tema inicial foi pensado pelo diretor, o rumo tomado no longa foi quase que totalmente conduzido pelas experiências reais dos atores. Ou melhor, amadores. Mais uma vez, Soderbergh preferiu trabalhar com profissionais da vida – e não dos sets: Sasha Grey é estrela pornô e foi escolhida para viver a protagonista, Chelsea, e Chris Santos é um dedicado personal trainer no filme... e no mundo lá fora. Foi o que David Levien, um dos roteiristas de Confissões e aluno de Santos, garantiu a Soderbergh. “David o convidou para uma conversa comigo, e, quando o vi, pensei: ‘Ele é perfeito para o papel’.”

Sasha foi encontrada por meio de um artigo na Los Angeles Magazine, lido pelo diretor há três anos. “A forma como ela se expressava, as palavras que ela dizia... Tudo fugia dos clichês de uma garota de programa”, diz Soderbergh. “Ela é tão ambiciosa quanto a personagem.”

Não houve ensaios para o filme, que retrata o dia a dia de uma prostituta de luxo. Foram somente 16 dias de filmagem sob o pedido: “Ajam como se não existissem câmeras”. Tudo na base do improviso. Soderbergh conta que são necessários pequenos truques para alcançar a naturalidade pretendida, como usar microfones por wireless, uma equipe enxuta e a liberdade de criação de cada um. “Deixei claro que gostaria de vê-los atuando como se estivessem vivendo. Não existia certo ou errado.”

A maioria das cenas foi filmada em apenas um take, o que explica o veloz processo de filmagem. A abordagem de temas como crise financeira e eleição americana foi espontânea, dado o mês de outubro de 2008. Um momento impagável é quando um cliente judeu tenta persuadir Chelsea a votar em McCain enquanto se despe, porque “o Estado de Israel não pode acabar”. Tudo foi natural, diz o diretor. “O momento financeiro era e ainda é crítico no país, e todos só queriam falar sobre dinheiro. Que é justamente do que trata todo o filme.”

Caramba, vai contra o que estamos discutindo nas aulas? O que vocês acham desse método?

Estudo Dirigido IV - Como não ser ator

Cena de Tropa de Elite
Prezadas e Prezados,

Como último estudo dirigido, favor ler o texto "Como não ser ator", de Emílio Fraia, disponível no SOL, no Material Didático, onde o autor analisa o método da diretor de elenco Fátima Toledo (que, entre outros dirigiu os atores em Pixote, Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Por favor, leiam o texto e respondam:

1) Em relação a direção de atores, você poderia descrever como pensa Fátima Toledo sobre o tema?

2) Há como fazer algum paralelo com os outros estilos de direção de atores?

3) Se você já assistiu algum(ns) filme(s) da preparadora (Pixote, Cidade de Deus, Tropa de Elite e outros citados no texto), qual a sua opinião sobre a atuação dos atores?

4) Qual a sua opinião pessoal sobre a metodologia utilizada pela preparadora?

Por favor, entreguem impresso no dia 26 de novembro, na sala de aula.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Protagonista de “A Noite das Tríbades”, Norival Rizzo diz que ator bom é aquele que reconhece o seu tamanho

Norival Rizzo: a comédia dramática "A Noite das Tríbades" pode ser vista no Teatro Eva Herz (Foto: Mário Rodrigues)
Rizzo: “minha ideia é sempre transformar o personagem no homem mais comum possível” (Foto: Mário Rodrigues)
Por Dirceu Alves Júnior - Blog do Dirceu Na Platéia - 07/11/2013 

Sem pestanejar, eu afirmo… A Noite das Tríbades está entre as cinco melhores peças que vi esse ano. Talvez entre as três. E grande parte do poder dessa comédia dramática escrita pelo sueco Per Olov Enquist e dirigida por Malú Bazan está nas mãos do ator Norival Rizzo. Paulistano mais que gente boa, Norival Aparecido Rizzo tem 62 anos e uma vida que muitas vezes parece ficção. Mas isso já foi papo de outra matéria feita por nós lá no mês de maio. Aqui, ele fala do espetáculo, que volta ao cartaz aos sábados e domingos no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura, comenta a experiência em Sangue Bom, a primeira novela na Rede Globo, e lança algumas frases que podem fazer muita gente refletir um pouco. “Aquele ator que deseja se equiparar ao Paulo Autran, por exemplo, vai ser um grande frustrado”, afirma Rizzo.

É mais difícil interpretar um personagem real, no caso o dramaturgo August Strindberg?
Olha, eu já havia interpretado o Monteiro Lobato em uma peça de 1972, lá no início da minha carreira. É claro que, para viver o Strindberg, eu procurei uma bibliografia a respeito dele. Já conhecia e reli algumas de suas peças. Ainda descobri outras. Mas, pelo menos comigo, não é assim que funciona um processo de criação. Todos os personagens que faço carregam o que trago da experiência pessoal. Deposito nesses homens um pouco da minha vivência, das minhas alegrias, das minhas tristezas e assim eu os construo. A base é o próprio texto, aquele que foi escrito por um dramaturgo e que vou seguir a cada noite. Mas a minha ideia é sempre transformar o personagem no homem mais comum possível, mesmo em se tratando do Strindberg.

Em que ponto exatamente você buscou a humanização desse personagem?
O que apresentamos é uma história ambientada no século 19, certo? E pensa bem no que aconteceu com aquele homem… A mulher o deixou por outra. Se hoje essa situação já é muito complicada para um homem lidar, então imagina o que isso significava naquele tempo? Por ser um artista, um intelectual, o Strindberg tentou alimentar um ar de superioridade. Ele quis mostrar que aquilo não lhe abateu tanto. Então, chama a ex-mulher e a amante dela, o pivô da separação, para ensaiar uma nova peça. Não tinha como dar certo. Em qualquer oportunidade, ele já fica alfinetando as duas. O resultado disso é muito legal. A ironia é o grande mote desse texto e acho que conseguimos transmitir no espetáculo.

Qual foi o saldo da sua participação na novela Sangue Bom, que acaba de sair do ar?  
Foi uma experiência válida para compreender como é que funciona a televisão. Eu terminei a novela entendendo porque o ritmo e o modo de trabalho de uma novela precisam ser daquele jeito, mais veloz, menos ensaiado. Fui muito bem tratado e não posso dizer que fui mal pago. Conheci um pessoal bem legal. Tanto que alguns dos meus colegas estão se organizado para ver A Noite das Tríbades aqui em São Paulo.

Você continua aberto para fazer mais novelas?
Sim, claro. Eu passei a valorizar o trabalho de muita gente que não conhecia e também entendi as limitações de cada ator. A televisão exige de você outro tipo de talento, quer dizer um talento diferente do que daqueles que estão acostumados com o palco. E é muito legal entender que cada ator tem o seu tamanho. E um ator só é bom realmente quando sabe qual é o seu próprio tamanho.

E qual é o seu tamanho?
Eu não posso querer ser como o Al Pacino ou como o Roberto De Niro. Eles são muito maiores que a grande parte dos profissionais que conhecemos. Aquele ator que deseja se equiparar ao Paulo Autran, por exemplo, vai ser um grande frustrado. Esses caras tiveram outras vivências e oportunidades. Eu sou o Norival Rizzo e ponto. O que me importa é dar dignidade ao papel que me confiaram. Em nenhum momento, um ator pode querer ser mais ou aparecer mais que o personagem. Nesses casos, tudo fica complicado. A vida é assim. As pessoas não são iguais. Tem gente que é brilhante e tem gente que serve o café para quem é brilhante.

(...)

Prezadas e Prezados, Norival Rizzo é um excelente ator em todas as narrativas em que se aventurou-se: TV, propaganda, teatro, cinema, internet. Da fala dele, qual conclusão você arriscaria a dar sobre o trabalho do ator e o papel do diretor nele?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O ponto final do cinema


Por Michel Laub - Folha de S. Paulo - 25/10/2013

É quase unânime que as séries de TV reúnem hoje o que há de mais talentoso no setor audiovisual, ao menos no caso americano. E que mobilizam de forma rara o público de ficção, vide o barulho provocado pelo final de "Breaking Bad".

Não discordo, já que também me impressionei com o que vi de "Mad Men", "The Wire", "Roma" e da própria saga de Walter White. Apenas relativizo o discurso que vê nesses exemplos o fim do cinema como linguagem relevante.

Na história da arte, toda mudança tecnológica/de suporte deixa para trás elementos suficientemente peculiares para terem seu valor reconhecido e cultivado. O teatro foi em tudo substituído por câmeras que registram cenas, menos na intensidade que um palco pode oferecer --a presença física dos atores, a intimidade da sala, a sensação de que aquilo nunca mais se repetirá daquela forma e naquelas circunstâncias.

Dizem que a superioridade atual de "Breaking Bad" e congêneres é temática, porque Hollywood teria perdido a coragem de tratar determinados assuntos com determinados enfoques. Pode ser, mas o mundo não é só Hollywood e a arte narrativa não é feita só de enredo.

Minha impressão é que o cinema sobreviverá menos por atributos técnicos, da textura da imagem em película ao som e tamanho de tela, cujos efeitos já são ou logo serão reproduzíveis em ambiente doméstico, do que por uma certa liberdade que seu formato permite.

Ironicamente, é uma liberdade que começa com uma limitação: o tempo que dura um longa-metragem. Numa série, o que está em jogo é a eficiência. As coisas precisam andar para a frente, jogando iscas para que o espectador mantenha o interesse por várias temporadas ou maratonas de episódios.

Há um investimento alto na trama, o que um filme não precisa ter. O espectador está ali por algo como duas horas, e o diretor pode manejar a disponibilidade fazendo a história ter pontos mortos, contemplativos, durante os quais são digeridas informações e sensações vindas das sequências mais movimentadas.
Pode também fazer desses pontos a essência de sua obra. A duração menor de um filme permite testar a paciência e capacidade de concentração do público. Imaginem algumas das sinopses de títulos da Mostra de São Paulo, em cartaz agora na cidade, aplicadas a uma série que, como "Os Sopranos", durou nove anos.

(Exemplo tirado do site do festival: "Fata Morgana", Áustria, 2012, é sobre dois amantes que "falam devagar, calmamente, procurando as palavras certas para seus demônios interiores", e "tudo se resume à impossibilidade de entender a si próprio, que dirá o outro").

O que parece até charmoso de tão árido, integrando o folclore clássico de piadas com o cinema de arte, é o que faz do longa uma plataforma de experimentação e diversidade. Até em termos comerciais. É mais provável um sujeito do Uzbequistão financiar seu pequeno filme mudo sobre camundongos do que alguém conseguir algo parecido numa série da HBO ou da Sony.

Mesmo em "filmes de enredo", gosto de saber que existe um ponto final próximo. Vi a primeira temporada de "House of Cards", tenho uma ideia razoável de quem é o (bom) personagem de Kevin Spacey e para onde ele vai, mas nada garante que eu esteja certo. Para tirar a prova, precisarei investir dezenas de horas acompanhando cada trama paralela conduzida por cada diretor convidado.

A série é tão espetacular assim que valha o esforço, numa época em que se tem pouco tempo para ler, procrastinar trabalho, xingar os outros na internet? Tão melhor que um filme cujo argumento e condução são semelhantes, como "Ides of March", de George Clooney, e que me exigiu apenas uma caminhada distraída até a Augusta --durante a qual pensei no ser e no nada-- e um pacote de M&M's?

Por precisar dar o ponto final, uma visão de mundo que seguirá repercutindo na memória e imaginação do espectador, o cinema busca conduzir trama, personagens, ambientação e sentidos de forma mais intensa e concentrada. É um desafio que, quando respondido à altura, nos dá a ilusão maravilhosa de conhecer um universo ou uma biografia completa num período tão curto.

Tal concentração se opõe ao caráter folhetinesco das séries de modo análogo ao que a literatura moderna, lançando mão de atributos diversos, usou para se opor ao próprio e anterior caráter folhetinesco. Que era majoritário no século 19 e, outra ironia, começou a morrer quando surgiram os filmes.

Prezadas e Prezados, esse texto foi distribuído pelo Prof. Sávio e gostaria de ler as opiniões de vocês sobre o impacto do que o articulista diz sobre a direção de atores.