segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O ponto final do cinema


Por Michel Laub - Folha de S. Paulo - 25/10/2013

É quase unânime que as séries de TV reúnem hoje o que há de mais talentoso no setor audiovisual, ao menos no caso americano. E que mobilizam de forma rara o público de ficção, vide o barulho provocado pelo final de "Breaking Bad".

Não discordo, já que também me impressionei com o que vi de "Mad Men", "The Wire", "Roma" e da própria saga de Walter White. Apenas relativizo o discurso que vê nesses exemplos o fim do cinema como linguagem relevante.

Na história da arte, toda mudança tecnológica/de suporte deixa para trás elementos suficientemente peculiares para terem seu valor reconhecido e cultivado. O teatro foi em tudo substituído por câmeras que registram cenas, menos na intensidade que um palco pode oferecer --a presença física dos atores, a intimidade da sala, a sensação de que aquilo nunca mais se repetirá daquela forma e naquelas circunstâncias.

Dizem que a superioridade atual de "Breaking Bad" e congêneres é temática, porque Hollywood teria perdido a coragem de tratar determinados assuntos com determinados enfoques. Pode ser, mas o mundo não é só Hollywood e a arte narrativa não é feita só de enredo.

Minha impressão é que o cinema sobreviverá menos por atributos técnicos, da textura da imagem em película ao som e tamanho de tela, cujos efeitos já são ou logo serão reproduzíveis em ambiente doméstico, do que por uma certa liberdade que seu formato permite.

Ironicamente, é uma liberdade que começa com uma limitação: o tempo que dura um longa-metragem. Numa série, o que está em jogo é a eficiência. As coisas precisam andar para a frente, jogando iscas para que o espectador mantenha o interesse por várias temporadas ou maratonas de episódios.

Há um investimento alto na trama, o que um filme não precisa ter. O espectador está ali por algo como duas horas, e o diretor pode manejar a disponibilidade fazendo a história ter pontos mortos, contemplativos, durante os quais são digeridas informações e sensações vindas das sequências mais movimentadas.
Pode também fazer desses pontos a essência de sua obra. A duração menor de um filme permite testar a paciência e capacidade de concentração do público. Imaginem algumas das sinopses de títulos da Mostra de São Paulo, em cartaz agora na cidade, aplicadas a uma série que, como "Os Sopranos", durou nove anos.

(Exemplo tirado do site do festival: "Fata Morgana", Áustria, 2012, é sobre dois amantes que "falam devagar, calmamente, procurando as palavras certas para seus demônios interiores", e "tudo se resume à impossibilidade de entender a si próprio, que dirá o outro").

O que parece até charmoso de tão árido, integrando o folclore clássico de piadas com o cinema de arte, é o que faz do longa uma plataforma de experimentação e diversidade. Até em termos comerciais. É mais provável um sujeito do Uzbequistão financiar seu pequeno filme mudo sobre camundongos do que alguém conseguir algo parecido numa série da HBO ou da Sony.

Mesmo em "filmes de enredo", gosto de saber que existe um ponto final próximo. Vi a primeira temporada de "House of Cards", tenho uma ideia razoável de quem é o (bom) personagem de Kevin Spacey e para onde ele vai, mas nada garante que eu esteja certo. Para tirar a prova, precisarei investir dezenas de horas acompanhando cada trama paralela conduzida por cada diretor convidado.

A série é tão espetacular assim que valha o esforço, numa época em que se tem pouco tempo para ler, procrastinar trabalho, xingar os outros na internet? Tão melhor que um filme cujo argumento e condução são semelhantes, como "Ides of March", de George Clooney, e que me exigiu apenas uma caminhada distraída até a Augusta --durante a qual pensei no ser e no nada-- e um pacote de M&M's?

Por precisar dar o ponto final, uma visão de mundo que seguirá repercutindo na memória e imaginação do espectador, o cinema busca conduzir trama, personagens, ambientação e sentidos de forma mais intensa e concentrada. É um desafio que, quando respondido à altura, nos dá a ilusão maravilhosa de conhecer um universo ou uma biografia completa num período tão curto.

Tal concentração se opõe ao caráter folhetinesco das séries de modo análogo ao que a literatura moderna, lançando mão de atributos diversos, usou para se opor ao próprio e anterior caráter folhetinesco. Que era majoritário no século 19 e, outra ironia, começou a morrer quando surgiram os filmes.

Prezadas e Prezados, esse texto foi distribuído pelo Prof. Sávio e gostaria de ler as opiniões de vocês sobre o impacto do que o articulista diz sobre a direção de atores.

12 comentários:

  1. A construção de personagens em series, é de acordo com o desenvolvimento da trama ou até dependendo da opinião de público, ou seja, mantém a personagem ou retira, e a direção neste sentido vai pelo mesmo caminho, se for um bom diretor mantém até o final da serie ou até o final de temporada. E assim esta direção vai direcionando os atores a desenvolverem seus personagens, para que junto a trama nós prenda a cada episódio.

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  2. Penso que para a direção de atores, o rumo em que o audiovisual parece estar tomando segundo Michael Laub, no caso das séries, possibilita um desenvolvimento do personagem de forma mais tranquila para o ator visto a saga que seu personagem enfrenta ao longo das temporadas. Em cinema, a preparação do ator deve ser mais intensa, visto a necessidade de se apresentar a profundidade do personagem em apenas duas horas. Por outro lado, parece haver um risco maior do ator ficar preso ao personagem com quem convive, às vezes, por anos, podendo até influenciar sua vida pessoal, dependendo do método que ele utilizar...

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  3. A direção de atores na séries, é feita com mais intimidade, pois o expectador fiel de uma série que dura 9 ou 10 anos, conhece muito bem aquele personagem, que na sua décima temporada ja passou por muitas coisas. Talvez o ponto mais forte para que uma série seja cancelada, é uma boa trama, mas para uma boa trama é preciso bons personagens, e para bons personagens a direção dos atores precisa ser mais densa, na primeira temporada é necessário uma identificação rápida, para que se possa desenvolver esse personagem, torná-lo mais denso nas próxima temporada.É como se o personagem fosse nosso amigo próximo ou uma pessoa com quem convivemos diariamente, acompanhamos os altos e baixos dessa pessoa, mas é preciso para isso tempo, e tempo as séries tem, manter um nível de proximidade com o espectador é a bola da vez.

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  4. Como o autor diz, "numa série está em jogo a eficiência".
    Isso se aplica também a cada ator e personagem de uma série, pois o sucesso dela e de seu personagem vão estar intimamente ligados.
    Se um personagem não vai bem, pode ser que a série toda não vá bem também. Mas pode ser que retirar determinado ator e seu personagem façam com que a série continue e sobreviva, até melhor talvez.
    Isso não se aplica ao cinema, exceto por um ou outro caso de filmes em série onde um personagem secundário cresce de um filme para o outro devido a seu sucesso.
    Assim, numa série, depende-se muito mais do ator e da criação do personagem dele para que a série tenha ou não sucesso ou vida longa, ele também vai ter mais tempo e mais envolvimento com esse personagem, podendo crescer muito com ele nesse período em que o interpretará.

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  5. Para séries é preciso fazer uma direção de atores mais bem elabora,pois o personagem é construído não para um curta ou longa metragem, mas para personagens que duraram meses ou até anos. Com o tempo de duração das série os atores passam criar um caminho para o personagem que muitas vezes faz com que os espectadores se confundam com a ficção com a vida real.Essa forma de direção de atores faz com que vejamos a série sem pensar em atuação de atores tudo fica "natural".

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  6. Acredito que além de uma boa trama, o que mais prende o espectador em uma série é a identificação com os personagens e ser cativado com a trama do mesmo. E para que isso ocorra, é necessário uma boa atuação do ator, pois é função dele de cativar o espectador ao personagem. E é claro, para uma boa atuação, é necessário que o diretor possa guiar o ator de formar que os ajude a criar uma atuação convincente e profunda, pois ele terá que manter a profundidade psicológica desse personagem não apenas para um longa de duas horas, e sim temporadas. Sem contar que o diretor e ator também tem que ter a sabedoria de como manter a essência do personagem, mas ao mesmo tempo deixá-la um pouco aberto, pois como se trata de um seriado, a estória sempre pode mudar de rumo e o personagem também.

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  7. Acredito que a atuação em uma série de TV seja diferenciada daquela conduzida no cinema. Primeiramente porque, ao menos no modelo americano, as séries são dirigidas por diferentes diretores em cada episódio, podendo uma mesma séria conter dezenas de diretores diferentes. Sendo assim a criação e desenvolvimento dos personagens está muito mais nas mãos dos roteiristas do que dos diretores - ainda mais que no cinema. Seria um caos se cada diretor optasse por dirigir o ator a sua maneira em cada episódio de uma série. Portanto o ator acaba tendo que desenvolver esse personagem ao longo da série, tendo o diretor que auxiliá-lo a seguir fiel ao personagem que está descrito no roteiro e não possuindo autonomia para modificá-lo sempre que desejar. Como o ator passa a conviver muito tempo com seu personagem isso permite que ele possa entender melhor esse personagem e desenvolvê-lo com mais calma e precisão.

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  8. São dois processos diferentes tanto pra cinema quanto pra televisão.
    No caso da TV o ator tem um certo imediatismo em relação a criação das personagem gerado pela quantidade de material que é gravado todos os dias e também pela bruscas mudanças na trama causadas pelo "IBOP".
    Já no cinema o ator tem um trabalho que será realizado dentro de um certo período e que terá começo meio e fim. Esse processo não sofre as com as alterações de trama que ocorrem na TV. Ele sabe como seu personagem vai ser do inicio do filme até o final.
    Cada trabalho tem suas peculiaridades.

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  9. A construção imagética da TV e do cinema são diferentes mesmo pela liberdade artistica do cinema e a necessidade da TV junto à publicidade de construir um público e fazê-lo com que eles acompanhem o produto até o seu final, tomando como exemplo as séries de TV que em sua construção tem como base ganchos no roteiro para ligar a narrativa à vários blocos. Assim também é no que diz respeito à direção de atores, na TV a liberdade para experimentação não é tão ampla.

    Fernanda de Sena

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  10. Para as séries a direção de atores permite um desenvolvimento sem pressa, já que não é necessário o espectador saber tudo o que é importante na vida do personagem em apenas 2hs. Mesmo tento essa facilidade nas séries é preciso que o ator aprenda a adaptar seu personagem as mudanças que o roteiro das próximas temporadas pedem.

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  11. Não acompanho séries de TV, mas imagino que a direção de atores seja como todos, dentro das exigências da TV, como sembre buscar o naturalismo, a verossimilhança. Como a TV trabalha mais com planos fechados e cortes rápidos, isso acaba limitando a atuação do ator.

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  12. Uma passagem de tempo de um filme é muito distinta de uma série, ele pode contar sobre a vida de alguém no decorrer de duas horas e enchê-lo de momentos contemplativos, ou testar planos mais ousados que valorizem uma direção mais carregada de atores. Numa série, por haver planos mais fechados, isso fica limitado e não há esse tempo morto que o cinema dispõe, pois uma série precisa de ganchos para prender o telespectador e sempre ter um roteiro afiado para segurar a audiência por várias temporadas. Com isso, o ator de uma série também precisa aprender a ser esse personagem no decorrer das temporadas, saber seus trejeitos e forma de falar, ao passo que um ator de cinema tem isso de uma forma mais tranquila, pois só será produzido um filme sobre determinado personagem.


    Andrew Rodrigo Santos de Oliveira

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