sexta-feira, 14 de junho de 2013

Cine Repertório "Pixote"

Preparação de elenco: Fátima  Toledo

terça-feira, 11 de junho de 2013

Taba Paradiso

Por Juliana Arini, do Parque Nacional do Xingu - Revista Época - Ed. 597 - 21/10/2009

Um cacique do Xingu usa o cinema e descobertas arqueológicas para manter viva a tradição indígena



No Alto Xingu, em Mato Grosso, um curioso ritual ocorre todos os dias, depois do pôr do sol. Crianças, mulheres e jovens se reúnem em uma grande oca oval de palha, construída no estilo tradicional xinguano. Eles disputam lugares em bancos de madeira até que as primeiras imagens iluminam o ambiente. À frente do grupo, entre esculturas de barro na forma de onça e de jacaré – símbolos do poder dos chefes –, está Afukaka Kuikuro, um dos líderes mais respeitados do Parque Indígena do Xingu. “Tisügühütu ongitegoho”, diz o cacique, apontando para uma televisão de 29 polegadas. (Não tente pronunciar essa frase, é uma sentença anasalada, e isso aí em cima é uma transliteração feita por uma especialista em línguas indígenas. )

Ver televisão na oca de um índio já é algo comum em muitas terras indígenas do Brasil. A diferença na aldeia cuicuro é a programação. Ali, eles não assistem apenas a novelas, noticiários ou jogos de futebol. Os cuicuros se reúnem para ver filmes sobre índios feitos por índios. “Tisügühütu ongitegoho”, afirma novamente Afukaka e ri de minha expressão de incompreensão. “É para guardar nosso costume”, diz o cacique, traduzindo sua fala entre gargalhadas. No filme a que assistimos, duas índias começam a representar o mito de criação do pequi, uma fruta do Cerrado que divide com a mandioca posição essencial na dieta indígena. Cantos e rituais desenrolam-se por duas horas, o tempo exato que dura a energia do gerador de luz. Os índios usam baterias de carro abastecidas por placas solares para ter eletricidade em momentos especiais, como ligar o radiocomunicador, trabalhar no computador da escola e assistir aos filmes indígenas.

O grupo acompanha as cenas sobre o pequi com as mais diversas reações. Às vezes caçoam uns dos outros, às vezes fazem mesuras de respeito. A energia do gerador acaba, a sessão de cinema também. A oca fica na mais completa escuridão. O grupo começa a ir embora cantando em caribe, a língua dos cuicuros. A família do cacique vai para as redes espalhadas pela casa. Moram na oca cerca de 30 pessoas, entre elas as quatro mulheres de Afukaka, algumas de suas nove filhas, a família de seu único filho homem e muitos netos. Tateando entre crianças e panelas, consigo finalmente encontrar a rede dos visitantes. Os índios continuam a conversar sobre cinema até um silêncio não programado invadir o ambiente.

Os vídeos que os índios veem todos os dias vieram de um sonho de Afukaka. Ele queria guardar as histórias de seus antepassados para os jovens cuicuros não perderem suas tradições. O cacique é conhecido por dedicar sua vida à missão. Afukaka divide com o índio Aritana Ywalapiti a posição de líder máximo do Xingu. Um status conquistado apenas pelos guerreiros que vencem as disputas corporais executadas durante o Festival do Quarup, o ritual dos mortos do Alto Xingu. “Os caciques herdam a liderança das aldeias de seus pais, mas para ser chefe do Xingu tem de vencer muitos quarupes”, afirma Afukaka, mostrando suas orelhas deformadas como as de um lutador de artes marciais. Além de um grande guerreiro, Afukaka é sobrevivente das três maiores ameaças que pairam sobre os índios: a perda de suas terras, as doenças trazidas pelo contato com os brancos e a desintegração cultural. Processos que chegam com a velocidade de instalação de fazendas e cidades na vizinhança.

A paisagem das aldeias é um exemplo do desafio de Afukaka. Antenas parabólicas e casas onde lonas de plástico preto tomam o lugar da tradicional palha de buriti (uma árvore do Cerrado) são evidências claras de que o Xingu mudou. Um dos principais indutores dessa transformação é o fascínio dos índios pelo “papel do branco”, o modo como designam o dinheiro. Uma influência que pesa principalmente sobre os jovens, seduzidos pelo consumo nas cidades. Um problema comum a todas as aldeias do Brasil, que também invadiu a vida no Parque do Xingu. Mesmo ali, distante 400 quilômetros da cidade mais próxima, onde 5 mil índios dominam um território de 2,6 milhões de hectares, é praticamente impossível ver um jovem sem celular e um aparelho digital para ouvir música. Muitos adolescentes também usam sites de relacionamento na internet. O principal problema desse estreito contato com a cultura de fora é o crescente desinteresse em relação às tradições. “Muitos jovens querem ter carro, viajar para as cidades, jogar futebol e ouvir rádio”, diz Afukaka. “Alguns nem entendem mais nossos rituais.”

Aos 58 anos, Afukaka luta para evitar que essa transformação cultural seja uma catástrofe. “Eu visitei os índios dos Estados Unidos há dez anos. Lá, eles têm cassinos e muito dinheiro, mas seus chefes lamentam por não saber mais nada sobre a história de seus avós e por ter perdido até a própria língua”, diz Afukaka, durante um café da manhã em que as índias serviam o biju, uma espécie de tapioca feita de farinha de mandioca. “Viajei muito e vi museus em Washington, em Nova York e no Canadá. Conheci também os museus dos nossos parentes índios americanos. Voltei com todas essas ideias na cabeça”, diz, dando um salto da cadeira e caminhando em direção a uma casa amarela, pintada com desenhos indígenas. Ele abre a porta e diz: “Aqui vai ser o nosso museu”.

A imagem de computadores, livros e arquivos de DVD me faz viajar de um Xingu indígena para uma repentina modernidade. “São eles que filmam nossos rituais”, diz o cacique, apontando dois índios concentrados nos computadores da sala. Takumã e Mahajugi nos recebem com um sorriso. Eles são índios cuicuros que estudam cinema fora das aldeias. Em três anos, aprenderam a usar filmadoras digitais, trabalhar com iluminação e editar os filmes. Quando eu era criança, via os jornalistas filmando no Xingu. Daí, pensava: ‘Quero fazer isso também’, afirma Takumã. Entre os DVDs que já gravou está O cheiro do pequi, a que assistimos na noite anterior. “Nunca imaginei que iria conseguir.”

A ideia de os próprios índios documentarem seus rituais surgiu em 2004, incentivada pelo antropólogo Carlos Fausto, um dos maiores estudiosos da cultura xinguana e pesquisador do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Ele apresentou Afukaka ao projeto Vídeo nas Aldeias, dirigido por Vincent Carelli, um dos grandes vencedores do último Festival de Cinema de Gramado. Carelli recebeu dois prêmios, por melhor direção e filme, com o documentário Corumbiara, em que relata um massacre de índios de Rondônia em1980. Ele trabalha há 30 anos documentando a cultura indígena e, hoje, também ensina as técnicas de cinema aos índios. “Foi um processo natural, no começo minhas câmeras ficavam a serviço dos índios, agora estou ensinando tudo a eles”, diz.

Uma das revelações dos vídeos cuicuros é o domínio indígena sobre a linguagem do cinema. “Eles sempre surpreendem com soluções criativas, como usar bicicletas para substituir equipamentos profissionais de cinema”, afirma Carelli. O cinema nas aldeias também estimula os jovens a buscar o conhecimento dos índios mais velhos. “Precisamos fazer muitas entrevistas para escrever o roteiro. No começo, os velhos ficavam bravos e não entendiam nosso trabalho”, afirma Takumã. “Até que mostramos os primeiros filmes e todo mundo gostou de se ver na televisão. Aí ficou bem mais fácil.” O cinema despertou uma curiosa vaidade: as índias ficam bravas quando aparecem descabeladas ou velhas. Outro ponto interessante é que a produção obriga os índios a resolver conflitos culturais. Eles brigam para decidir qual versão do mito que vai prevalecer e também discutem sobre quem vai atuar. “No filme sobre o pequi ninguém queria deixar sua mulher fazer o papel da moça que trai o marido com o jacaré. Depois de muita negociação, conseguimos selecionar as atrizes, entre as mulheres mais velhas”, diz Carelli.

Além do cinema, Afukaka está executando outro feito inédito. Ele conseguiu fazer uma refinada documentação dos cantos dos cuicuros. “Virei o Roberto Carlos do Xingu”, diz o cacique, cuja aparência física não podia estar mais distante do cantor. Afukaka diz que a referência se justifica porque o canto é o laço mais importante dos índios com sua cultura. “Não temos livros, nossa história é guardada nas canções. Quem sabe cantar é muito respeitado no Xingu.”

Apesar da importância dos cantos e do cinema, Afukaka é famoso por outra iniciativa. Ele é o precursor dos estudos científicos no Xingu. Foi o primeiro índio brasileiro a assinar um artigo na renomada revista americana Science. A pesquisa começou em 1996, quando Afukaka conheceu o arqueólogo americano Michael Heckenberger, em uma viagem ao Rio de Janeiro, para discutir a situação do Xingu com políticos. O pesquisador procurou os índios para buscar ajuda em um estudo sobre a história do povoamento da Amazônia. Ao conversar com Afukaka, Heckenberger ficou fascinado pelos relatos de grandes cidades perdidas no Alto Xingu e decidiu pedir autorização para pesquisar nas aldeias. Passou dois anos morando na casa de Afukaka. “O cacique é uma das pessoas mais cultas e extraordinárias que conheci”, diz Heckenberger, coautor do artigo, publicado em 2008.

Em 15 anos de pesquisa, o americano conseguiu mudar a história arqueológica da Amazônia. Heckenberger provou a existência de uma civilização avançada que viveu no Alto Xingu entre os séculos IX e XIV. Uma sociedade com núcleos urbanos de até 5 mil pessoas, que praticavam o comércio, fabricavam uma refinada cerâmica, construíam estradas e fossos com fortificações de palha para proteger as cidades. Essa civilização teria atingido seu apogeu no século XII, antes da chegada dos europeus às Américas.

Afukaka faz um convite para visitarmos as ruínas da civilização descrita na Science. Fico em dúvida se aceito a carona do cacique em uma motocicleta parada perto da casa do cinema. Ele parece que vai cair a qualquer momento. Uma de suas filhas me confidencia que a condição física de Afukaka é fruto de uma grande tragédia. “Ele ficou assim depois que meus irmãos morreram.”

Descubro que Afukaka é um líder sem sucessor definido. Seu único filho homem vivo não decidiu se vai ser um cacique e o neto mais velho, que herdou seu nome, mora em São Paulo – e quer estudar administração. Não ter um sucessor preparado é um drama entre os índios, que passam o comando das aldeias de forma hereditária.

O problema sobre a sucessão de Afukaka começou há 15 anos. Seu filho mais velho morreu durante os rituais que marcam a passagem da vida das crianças para a fase adulta. A causa da morte pode ter sido a reclusão obrigatória em uma casa construída no centro da aldeia. Seis meses depois, Afukaka sofreu outra perda. Seu segundo filho, ainda criança, morreu de meningite. Abatido pelas mortes, o cacique entrou em depressão e adoeceu. Tratado com corticosteroides, hormônios usados para combater alergias, Afukaka acabou deformado pelos remédios. O forte guerreiro virou um homem calvo, encorpado e com uma expressão inchada. “Foi depois da morte dos filhos que Afukaka passou a ter essa preocupação cada vez maior em registrar a cultura de seu povo”, diz Fausto, do Museu Nacional.

Decido aceitar a carona para conhecer as ruínas. Depois de alguns minutos em uma trilha na mata, paramos em uma clareira. Atrás das árvores, grandes valetas que lembram fossos de castelos medievais seguem como serpentes cortando a floresta até as margens de um lago de águas transparentes. A aldeia cuicuro é considerada um dos lugares mais bonitos do Parque Indígena do Xingu. Dá para entender por que as antigas cidades eram erguidas ali, próximas do impressionante rio. Afukaka aponta para as escavações de Heckenberger. Vejo três grandes covas de 10 metros de largura e 3 metros de profundidade. O cacique caminha entre as escavações arqueológicas e me mostra pontas de lança e cacos de cerâmica. Penso na dimensão impressionante que as cidades teriam e compreendo o entusiasmo de Heckenberger. “Aqui moravam meus antepassados, os avós das histórias que meu vovô contava”, diz Afukaka, com orgulho. “Fico feliz de vir aqui. Sinto que finalmente está tudo registrado, e os índios não vão mais esquecer nossa história. Tisügühütu ongitegoho”, afirma, com um sorriso no rosto.

Prezados, embora não seja exatamente nosso campo de estudo, achei que a reportagem iria interessar vocês. Apenas para não deixar de darem sua opinião, me digam como vocês acreditam que o 'diretor' desses projetos dirigem seus 'atores'.