Por Juliana Arini, do Parque Nacional do Xingu - Revista Época - Ed. 597 - 21/10/2009
Um cacique do Xingu usa o cinema e descobertas arqueológicas para manter viva a tradição indígena
No
Alto Xingu, em Mato Grosso, um curioso ritual ocorre todos os dias,
depois do pôr do sol. Crianças, mulheres e jovens se reúnem em uma
grande oca oval de palha, construída no estilo tradicional xinguano.
Eles disputam lugares em bancos de madeira até que as primeiras imagens
iluminam o ambiente. À frente do grupo, entre esculturas de barro na
forma de onça e de jacaré – símbolos do poder dos chefes –, está
Afukaka Kuikuro, um dos líderes mais respeitados do Parque Indígena do
Xingu. “Tisügühütu ongitegoho”, diz o cacique, apontando para uma
televisão de 29 polegadas. (Não tente pronunciar essa frase, é uma
sentença anasalada, e isso aí em cima é uma transliteração feita por uma
especialista em línguas indígenas. )
Ver televisão na oca
de um índio já é algo comum em muitas terras indígenas do Brasil. A
diferença na aldeia cuicuro é a programação. Ali, eles não assistem
apenas a novelas, noticiários ou jogos de futebol. Os cuicuros se reúnem
para ver filmes sobre índios feitos por índios. “Tisügühütu
ongitegoho”, afirma novamente Afukaka e ri de minha expressão de
incompreensão. “É para guardar nosso costume”, diz o cacique,
traduzindo sua fala entre gargalhadas. No filme a que assistimos, duas
índias começam a representar o mito de criação do pequi, uma fruta do
Cerrado que divide com a mandioca posição essencial na dieta indígena.
Cantos e rituais desenrolam-se por duas horas, o tempo exato que dura a
energia do gerador de luz. Os índios usam baterias de carro abastecidas
por placas solares para ter eletricidade em momentos especiais, como
ligar o radiocomunicador, trabalhar no computador da escola e assistir
aos filmes indígenas.
O grupo acompanha as cenas sobre o pequi
com as mais diversas reações. Às vezes caçoam uns dos outros, às vezes
fazem mesuras de respeito. A energia do gerador acaba, a sessão de
cinema também. A oca fica na mais completa escuridão. O grupo começa a
ir embora cantando em caribe, a língua dos cuicuros. A família do
cacique vai para as redes espalhadas pela casa. Moram na oca cerca de 30
pessoas, entre elas as quatro mulheres de Afukaka, algumas de suas
nove filhas, a família de seu único filho homem e muitos netos.
Tateando entre crianças e panelas, consigo finalmente encontrar a rede
dos visitantes. Os índios continuam a conversar sobre cinema até um
silêncio não programado invadir o ambiente.
Os vídeos que os
índios veem todos os dias vieram de um sonho de Afukaka. Ele queria
guardar as histórias de seus antepassados para os jovens cuicuros não
perderem suas tradições. O cacique é conhecido por dedicar sua vida à
missão. Afukaka divide com o índio Aritana Ywalapiti a posição de líder
máximo do Xingu. Um status conquistado apenas pelos guerreiros que
vencem as disputas corporais executadas durante o Festival do Quarup, o
ritual dos mortos do Alto Xingu. “Os caciques herdam a liderança das
aldeias de seus pais, mas para ser chefe do Xingu tem de vencer muitos
quarupes”, afirma Afukaka, mostrando suas orelhas deformadas como as de
um lutador de artes marciais. Além de um grande guerreiro, Afukaka é
sobrevivente das três maiores ameaças que pairam sobre os índios: a
perda de suas terras, as doenças trazidas pelo contato com os brancos e a
desintegração cultural. Processos que chegam com a velocidade de
instalação de fazendas e cidades na vizinhança.
A paisagem das
aldeias é um exemplo do desafio de Afukaka. Antenas parabólicas e casas
onde lonas de plástico preto tomam o lugar da tradicional palha de
buriti (uma árvore do Cerrado) são evidências claras de que o Xingu
mudou. Um dos principais indutores dessa transformação é o fascínio dos
índios pelo “papel do branco”, o modo como designam o dinheiro. Uma
influência que pesa principalmente sobre os jovens, seduzidos pelo
consumo nas cidades. Um problema comum a todas as aldeias do Brasil,
que também invadiu a vida no Parque do Xingu. Mesmo ali, distante 400
quilômetros da cidade mais próxima, onde 5 mil índios dominam um
território de 2,6 milhões de hectares, é praticamente impossível ver um
jovem sem celular e um aparelho digital para ouvir música. Muitos
adolescentes também usam sites de relacionamento na internet. O
principal problema desse estreito contato com a cultura de fora é o
crescente desinteresse em relação às tradições. “Muitos jovens querem
ter carro, viajar para as cidades, jogar futebol e ouvir rádio”, diz
Afukaka. “Alguns nem entendem mais nossos rituais.”
Aos 58 anos,
Afukaka luta para evitar que essa transformação cultural seja uma
catástrofe. “Eu visitei os índios dos Estados Unidos há dez anos. Lá,
eles têm cassinos e muito dinheiro, mas seus chefes lamentam por não
saber mais nada sobre a história de seus avós e por ter perdido até a
própria língua”, diz Afukaka, durante um café da manhã em que as índias
serviam o biju, uma espécie de tapioca feita de farinha de mandioca.
“Viajei muito e vi museus em Washington, em Nova York e no Canadá.
Conheci também os museus dos nossos parentes índios americanos. Voltei
com todas essas ideias na cabeça”, diz, dando um salto da cadeira e
caminhando em direção a uma casa amarela, pintada com desenhos
indígenas. Ele abre a porta e diz: “Aqui vai ser o nosso museu”.
A
imagem de computadores, livros e arquivos de DVD me faz viajar de um
Xingu indígena para uma repentina modernidade. “São eles que filmam
nossos rituais”, diz o cacique, apontando dois índios concentrados nos
computadores da sala. Takumã e Mahajugi nos recebem com um sorriso.
Eles são índios cuicuros que estudam cinema fora das aldeias. Em três
anos, aprenderam a usar filmadoras digitais, trabalhar com iluminação e
editar os filmes. Quando eu era criança, via os jornalistas filmando
no Xingu. Daí, pensava: ‘Quero fazer isso também’, afirma Takumã. Entre
os DVDs que já gravou está O cheiro do pequi, a que assistimos na noite anterior. “Nunca imaginei que iria conseguir.”
A
ideia de os próprios índios documentarem seus rituais surgiu em 2004,
incentivada pelo antropólogo Carlos Fausto, um dos maiores estudiosos da
cultura xinguana e pesquisador do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
Ele apresentou Afukaka ao projeto Vídeo nas Aldeias, dirigido por
Vincent Carelli, um dos grandes vencedores do último Festival de Cinema
de Gramado. Carelli recebeu dois prêmios, por melhor direção e filme,
com o documentário Corumbiara, em que relata um massacre de
índios de Rondônia em1980. Ele trabalha há 30 anos documentando a
cultura indígena e, hoje, também ensina as técnicas de cinema aos
índios. “Foi um processo natural, no começo minhas câmeras ficavam a
serviço dos índios, agora estou ensinando tudo a eles”, diz.
Uma
das revelações dos vídeos cuicuros é o domínio indígena sobre a
linguagem do cinema. “Eles sempre surpreendem com soluções criativas,
como usar bicicletas para substituir equipamentos profissionais de
cinema”, afirma Carelli. O cinema nas aldeias também estimula os jovens
a buscar o conhecimento dos índios mais velhos. “Precisamos fazer
muitas entrevistas para escrever o roteiro. No começo, os velhos
ficavam bravos e não entendiam nosso trabalho”, afirma Takumã. “Até que
mostramos os primeiros filmes e todo mundo gostou de se ver na
televisão. Aí ficou bem mais fácil.” O cinema despertou uma curiosa
vaidade: as índias ficam bravas quando aparecem descabeladas ou velhas.
Outro ponto interessante é que a produção obriga os índios a resolver
conflitos culturais. Eles brigam para decidir qual versão do mito que
vai prevalecer e também discutem sobre quem vai atuar. “No filme sobre o
pequi ninguém queria deixar sua mulher fazer o papel da moça que trai o
marido com o jacaré. Depois de muita negociação, conseguimos
selecionar as atrizes, entre as mulheres mais velhas”, diz Carelli.
Além
do cinema, Afukaka está executando outro feito inédito. Ele conseguiu
fazer uma refinada documentação dos cantos dos cuicuros. “Virei o
Roberto Carlos do Xingu”, diz o cacique, cuja aparência física não
podia estar mais distante do cantor. Afukaka diz que a referência se
justifica porque o canto é o laço mais importante dos índios com sua
cultura. “Não temos livros, nossa história é guardada nas canções. Quem
sabe cantar é muito respeitado no Xingu.”
Apesar da importância
dos cantos e do cinema, Afukaka é famoso por outra iniciativa. Ele é o
precursor dos estudos científicos no Xingu. Foi o primeiro índio
brasileiro a assinar um artigo na renomada revista americana Science. A
pesquisa começou em 1996, quando Afukaka conheceu o arqueólogo
americano Michael Heckenberger, em uma viagem ao Rio de Janeiro, para
discutir a situação do Xingu com políticos. O pesquisador procurou os
índios para buscar ajuda em um estudo sobre a história do povoamento da
Amazônia. Ao conversar com Afukaka, Heckenberger ficou fascinado pelos
relatos de grandes cidades perdidas no Alto Xingu e decidiu pedir
autorização para pesquisar nas aldeias. Passou dois anos morando na
casa de Afukaka. “O cacique é uma das pessoas mais cultas e
extraordinárias que conheci”, diz Heckenberger, coautor do artigo,
publicado em 2008.
Em 15 anos de pesquisa, o americano conseguiu
mudar a história arqueológica da Amazônia. Heckenberger provou a
existência de uma civilização avançada que viveu no Alto Xingu entre os
séculos IX e XIV. Uma sociedade com núcleos urbanos de até 5 mil
pessoas, que praticavam o comércio, fabricavam uma refinada cerâmica,
construíam estradas e fossos com fortificações de palha para proteger
as cidades. Essa civilização teria atingido seu apogeu no século XII,
antes da chegada dos europeus às Américas.
Afukaka faz um convite para visitarmos as ruínas da civilização descrita na Science.
Fico em dúvida se aceito a carona do cacique em uma motocicleta parada
perto da casa do cinema. Ele parece que vai cair a qualquer momento.
Uma de suas filhas me confidencia que a condição física de Afukaka é
fruto de uma grande tragédia. “Ele ficou assim depois que meus irmãos
morreram.”
Descubro que Afukaka é um líder sem sucessor
definido. Seu único filho homem vivo não decidiu se vai ser um cacique e
o neto mais velho, que herdou seu nome, mora em São Paulo – e quer
estudar administração. Não ter um sucessor preparado é um drama entre
os índios, que passam o comando das aldeias de forma hereditária.
O
problema sobre a sucessão de Afukaka começou há 15 anos. Seu filho mais
velho morreu durante os rituais que marcam a passagem da vida das
crianças para a fase adulta. A causa da morte pode ter sido a reclusão
obrigatória em uma casa construída no centro da aldeia. Seis meses
depois, Afukaka sofreu outra perda. Seu segundo filho, ainda criança,
morreu de meningite. Abatido pelas mortes, o cacique entrou em
depressão e adoeceu. Tratado com corticosteroides, hormônios usados
para combater alergias, Afukaka acabou deformado pelos remédios. O forte
guerreiro virou um homem calvo, encorpado e com uma expressão inchada.
“Foi depois da morte dos filhos que Afukaka passou a ter essa
preocupação cada vez maior em registrar a cultura de seu povo”, diz
Fausto, do Museu Nacional.
Decido aceitar a carona para conhecer
as ruínas. Depois de alguns minutos em uma trilha na mata, paramos em
uma clareira. Atrás das árvores, grandes valetas que lembram fossos de
castelos medievais seguem como serpentes cortando a floresta até as
margens de um lago de águas transparentes. A aldeia cuicuro é
considerada um dos lugares mais bonitos do Parque Indígena do Xingu. Dá
para entender por que as antigas cidades eram erguidas ali, próximas do
impressionante rio. Afukaka aponta para as escavações de Heckenberger.
Vejo três grandes covas de 10 metros de largura e 3 metros de
profundidade. O cacique caminha entre as escavações arqueológicas e me
mostra pontas de lança e cacos de cerâmica. Penso na dimensão
impressionante que as cidades teriam e compreendo o entusiasmo de
Heckenberger. “Aqui moravam meus antepassados, os avós das histórias
que meu vovô contava”, diz Afukaka, com orgulho. “Fico feliz de vir
aqui. Sinto que finalmente está tudo registrado, e os índios não vão
mais esquecer nossa história. Tisügühütu ongitegoho”, afirma, com um
sorriso no rosto.
Prezados,
embora não seja exatamente nosso campo de estudo, achei que a
reportagem iria interessar vocês. Apenas para não deixar de darem sua
opinião, me digam como vocês acreditam que o 'diretor' desses projetos
dirigem seus 'atores'.
terça-feira, 11 de junho de 2013
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Uma forma bem divertida e "atraente" para fazer com que as novas gerações não se esqueçam de suas raizes.
ResponderExcluirAcho que a grande preocupação não é com "atuação" ou "naturalismo" , mas em contar a história de forma "verdadeira" , ou seja, que as pessoas envolvidas possam "representar" a historia contada de acordo com os detalhes passados pelos seus antepassados sem "alterações" .
De certa forma eles estão se "olhando no espelho" e reafirmando suas crenças e suas tradições, e o "cinema" sempre teve o "poder" de fascinar a todos que teem contato com ele.
O "diretor" deve na verdade, conhecer profundamente o "assunto' retratado de forma que ele possa "construir" uma mensagem onde todos irão se "reconhecer" e se orgulhar.
Já que não se pode fugir da tecnologia, que ela seja usada para preservar a história de modo mais íntimo e pessoal.
Que história fabulosa! Imagino que os índios profissionais do audiovisual tentam explicar para os atores algumas técnicas do cinema como: o enquadramento de câmera, planos, a captação do áudio e outros mecanismos utilizados nas filmagens. Acredito também que existe um posicionamento dos atores nas atuações para que o espectador, no caso eles mesmos entendam exatamente o que estão interpretando sobre suas histórias a partir dos gestos, a fala, o corpo etc. É diferente movimentar-se nos rituais e movimentar-se em frente a câmera, existem limitações por isso acredito que há adaptação na utilidade dos mecanismos audiovisuais. Jaqueline de Freitas Dias 31219828
ResponderExcluirAcho que não deve ter uma direção de atores, pois a ideia é captar seus rituais, caso tenha algumas direções podem parecer que foram ensaiados, por eles não serem atores. A intenção mesmo deles é de captação dos rituais, de captar o momento vivido e suas tradições.
ResponderExcluirRafael Ferreira - 31027504
Não sei se cabe dizer que existiu direção de atores, pode ser que sim. O Filme é contado como se fosse um documentário, onde é necessário a extração da realidade tal como ela é, porém todos sabemos que só pelo fato de estar diante de uma câmera já força uma atuação e por isso seria necessário uma pequena orientação de procedência.
ResponderExcluirAcredito que a direção de atores não entra em questão, até mesmo por questões culturais, dirigir como deve ser feito um ritual indígena, nunca que deixaria fazer isso. Bom, parece que este produto caminha para o lado documental, não fictício, embora no documentário podemos induzir nosso entrevistado com perguntas bem formuladas, não lhe direcionamos de como falar para causar determinado impacto, acho que o filme trata-se mais de uma narrativa documental do que fictícia.
ResponderExcluirRobert Junio
Os filmes feitos pelo cacique são documentários mostrando os costumes da tribo,ele resolveu fazer vídeos pois foi uma forma que ele encontrou de registrar o cotidiano da tribo. Acredito que nesse caso não tenha uma direção de atores, possivelmente teve um pequeno direcionamento por parte do cacique para o posicionamento das pessoas para enquadramento de câmera.
ResponderExcluirOs filmes feitos sao documentais, registros dos costumes e em alguns uma encenacao de mitos, como a historia da mulher que trai o marido com o jacare, acredito que os "atores" sao dirigidos de forma que pratiquem seus costumes para a camera tal como praticam na realidade.Com naturalidade e respeito pelos costumes. Nao acredito que há de fato algo que possa ser chamado de direcao de atores. Sao pessoas que vivem aquela realidade no cotidiano, nao há necessidade de dirigir essas "atuacoes".
ResponderExcluirNos dias de hoje com a globalização e inevitável que aparelhos de TV e computadores, façam parte da cultura indígena, conforme afirmado no texto. O interessante e que o cinema de documentário produzido pelo índios buscam resgatar a sua cultura, já globalizada. Por isso acredito não haver uma preparação especifica para a direção de atores nos filmes realizados pelos Indios.
ResponderExcluirWemerson Machado
Para os filmes feitos pelos indios sobre a sua propria cultura e costumes nao acredito que haja de fato uma direcao de atores. As pessoas que participam do filme, que sao quase documentais, vivem na tribo e fazem parte daquela cultura e costumes diariamente. Sua "interpretacao" deve ser natural, agir como agiria em um dia de ritual na tribo. Sao pessoas retratando a propria cultura e os proprios costumes.
ResponderExcluirCreio que não há direção, e por esse motivo, os índios devem conseguir a melhor representação do real. Eles não tem influencia televisiva, isso faz com que eles não atuem ou busquem imitar algo ou alguém, mas simplesmente sejam eles mesmos na frente das câmeras. Quando Fátima Toledo trabalha com não atores, seu objetivo é que eles reajam da forma como eles mesmos reagiriam se a cena estivesse acontecendo de fato. O que Fátima faz com seu trabalho é desconstruir a tentativa do não-ator de atuar, fazendo-o apenas ser ele mesmo. Creio que isso ocorre de fato semelhante com aqueles que não tem referências para a atuação
ResponderExcluirMuito interessante a forma de contar a história de um povo que era civilizados e até hoje são e vieram os europeus dizendo que os bugres como são chamados os Índios, e considerados animais. Bom, acho que o diretor teve como seu povo e os atores e atrizes uma noção do que poderiam fazer na montagem de personagens e histórias para cada um, sendo que é na musica e no boca a boca que as histórias passam por gerações.
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