segunda-feira, 16 de setembro de 2013

"Não há mais espaço para mocinhos no cinema"

Por Luís Antônio Giron - Revista Época - Ed. 594 - 02/10/2009

O ator diz que só se interessa por papéis que fujam do lugar-comum – como o do aventureiro Percy Fawcett, em um filme que deve trazê-lo ao Brasil no ano que vem

O ator Brad Pitt, de 45 anos, um dos mais assediados do mundo por jornalistas de escândalo e paparazzi, tem um esquema especial para dar entrevistas: fica isolado e quase inacessível.

(...)

ÉPOCA – A arquitetura o ajudou a fazer cinema?
Pitt –
Sim, principalmente na noção de conjunto e planejamento. Repare em Bastardos inglórios: é um filme arquitetonicamente concebido, com cinco capítulos aparentemente dissociados. Só a noção de conjunto pode revelar sua magia. A composição de um projeto de design ou arquitetura é mais ou menos a mesma que usamos na produção de um filme ou na criação de um personagem. É preciso saber exatamente até onde vai o projeto. No caso de um personagem, é preciso saber se ele se sustenta sozinho (risos).

ÉPOCA – Por que você gosta de personagens excêntricos, como Aldo Raine?
Pitt –
Não gosto de fazer o que outros atores fazem. Se é para fazer igual, deixo que outros façam. Eu me esforço para inovar, ser diferente e buscar papéis que me envolvam. Não suportaria conviver com um personagem banal, tipo galã, por dois ou três meses. Gosto de personagens que me desafiem, que me façam inventar algo, contribuir para a galeria dos tipos humanos.

ÉPOCA – Você parece lutar contra a imagem de superastro e dos papéis que habitualmente os superastros têm. Isso é consciente?
Pitt –
Não sei se luto contra. Na realidade, não tenho paciência para o lugar-comum. Se me quiserem, é assim que eu sou. Não adianta criar em cima de mim um galã antigo de cinema, isso, aliás, já passou. Não há mais espaço para mocinhos no cinema. Tudo mudou, até mesmo Hollywood. Hoje querem personagens mais complexos.

ÉPOCA – Qual é seu segredo para criar um personagem?
Pitt –
Não tenho segredo. Preciso estudar o roteiro, aprovar a história e me sentir bem com o personagem que vou criar. Em geral, não crio nada, vou é na cola dos diretores. Não tenho essa pretensão de “construir personagens”. O bom roteiro traz tudo o que você precisa para interpretar um papel.

ÉPOCA – Trabalhar com Quentin Tarantino é um processo difícil? Você criou ou improvisou algo? Aquele sotaque de caubói?
Pitt –
Nada disso. O Quentin não quer que ninguém improvise. Ele obriga todo mundo a trabalhar estritamente segundo o roteiro. Eu queria ter improvisado, mas ele não deixou (risos). Aldo está inteirinho no roteiro, em cada fala. Porque tudo é milimetricamente projetado nos filmes de Tarantino. É só seguir.

ÉPOCA – Você riu durante as filmagens?
Pitt –
O tempo todo! Trabalhei rindo. Meu personagem é muito engraçado, assim como o filme inteiro.

ÉPOCA – Você trabalhou com muitos outros cineastas visionários, como David Fincher, Terry Gilliam e Ridley Scott. Você os escolhe ou é escolhido?
Pitt –
As duas coisas. Cinema é o resultado do projeto de um diretor. Hoje não há como um ator tentar impor sua vontade. Os realizadores são os autores. Daí eu preferir os visionários aos banais. Adorei trabalhar com Tarantino e sou amigo pessoal e vizinho aqui em Hollywood de David Fincher, com quem já fiz três filmes. É deles que tudo deve partir, inclusive as ordens para o elenco. Procuro segui-las o mais fielmente possível.

ÉPOCA – Não ocorrem atritos?
Pitt –
Claro, mas nada que não se resolva numa troca de ideias. Procuro mais colaborar que polemizar. Sou um cara pacífico (risos).

ÉPOCA – O que você aprendeu com eles?
Pitt –
Quase tudo o que sei de cinema aprendi com esses diretores. E cada um traz uma contribuição diferente: Terry (Gilliam) abriu as portas do improviso e da beleza das formas e cores. David Fincher me trouxe mundos psíquicos que eu sozinho não poderia imaginar. Quentin Tarantino me ensinou a não dormir durante as filmagens! Ele me proibiu de fazer a soneca de 20 minutos depois do almoço, algo sagrado para mim. Bem, aprendi, mas agora voltei a dormir.

ÉPOCA – O que representou para você interpretar Benjamin Button, além de ter sido indicado ao Oscar pelo papel?
Pitt –
Foi um trabalho desafiador e estimulante. David Fincher trabalhou com meu personagem com vários tipos de máscaras feitas com alta tecnologia. E assim eu tinha de me render à disciplina técnica de um lado e, de outro, buscar a verossimilhança em um personagem que rejuvenesce. Mas o que mais me valeu foi a lição de vida do filme: a gente precisa se divertir, amar e fazer coisas de que gosta porque a vida é curta.

ÉPOCA – Você ainda tem alguma ambição como ator, o sonho de atuar no palco?
Pitt –
Atuar é minha vida, uma das coisas de que mais gosto de fazer. Sinto que estou construindo algo para que meus filhos continuem a se orgulhar de mim. Não quero que eles tenham vergonha do que faço. Então me esforço para pegar papéis bacanas. Ainda tenho muita coisa para trabalhar. Quero interpretar papéis que venham a fazer diferença. Papéis cada vez mais ambiciosos, eu diria, se isso não parecesse presunçoso. É engraçado, mas nunca pensei em trabalhar em teatro. Nem quero. Teatro está fora do que faço.

ÉPOCA – Por quê?
Pitt –
Talvez porque eu não me envolva tanto assim com os personagens como fazem os atores de teatro, aquela forma visceral não é para mim. Sou mais sossegado. Gosto de montar o personagem e vê-lo pronto em um filme. É o suficiente.

ÉPOCA – E como é produzir filmes?
Pitt –
Fascinante. É como trabalhar em um projeto. Eu aposto em desafios. E hoje existe mais oportunidade para quem realiza filmes mais ousados e independentes, como faz minha produtora.

ÉPOCA – Depois de tantos anos trabalhando no show business, o que ainda o irrita e que aspecto melhorou?
Pitt –
Nunca briguei em Hollywood nem entrei em confronto com qualquer estúdio. Isso porque tenho consciência da necessidade que os estúdios têm de vender filmes, de conquistar mercados e ganhar público. Então nunca houve de minha parte nenhuma revolta autoral. Sobre as coisas de que não gostava, tratei de conversar. Hoje, com a crise econômica, os estúdios estão mais simpáticos a trabalhos de coprodução. Até porque eles não têm outra opção. Isso tem dado chance a realizadores mais experimentais.

ÉPOCA – Hollywood nunca aprovou atrevimentos estéticos...
Pitt –
É verdade, mas as coisas mudaram. O que está em jogo hoje é o cinema como mercado. Só a inovação e a experimentação podem salvar a indústria. Antigamente, os estúdios davam as costas para isso. Agora, apostam em projetos financeiramente modestos, porém ousados do ponto de vista artístico. O cinema deverá mudar muito nos próximos dois anos. A gente vê superproduções de Hollywood inimagináveis há dois anos.

Prezados, dêem sua opinião.

20 comentários:

  1. Bacana a entrevista! Infelizmente os meios de comunicação ainda preferem entrevistar os atores aos realizadores, então é bom ao menos poder ouvir um ator falar de suas escolhas e dia à dia com diretor e equipe no set.
    É evidente a procura de grandes atores por personagens mais complexos (E é engraçado também como grandes diretores podem salvar carreiras de atores que entraram em decadência, com esses mesmos personagens mais complexos, feito o próprio Quentin em relação ao John Travolta).

    Acho que o mocinho sempre vai existir. Ele pode não ser o mesmo herói dos filmes de aventura ou de faroeste do cinema clássico, mas ainda assim estará ali, apesar de nem mesmo como protagonista. Talvez ele só não seja mais tão explorado como antes.

    Outro fenômeno interessante, mas sem relação, é que atores se envolvam em produção e outras atividades por detrás das câmeras. Não me impressiona que Brad Pitt queira dirigir filmes também.

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    1. Não tou conseguindo publicar com o meu nome. :/
      Mas, vai aí: Jéssica Cruz.

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    2. É importante ter atores versáteis com Brad Pitt, que realmente se entregam ao personagem e que conhecem os dois lados o interpretar e o produzir.É um ator que para cada filme cria uma fisionomia , sotaque ... Desvinculando um de outro.

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  2. Acho admirável quando um ator consegue impor sua opinião mesmo quando a industria é fechada , mesmo sem muito espaço pra criar ele impõe sua marca e isso o torna admirável e enriquece mais o personagem.

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  3. Não gostava do Brad Pitt, mas depois dessa entrevista agora vejo a pessoa dele com outro olhar, achei interessante quando ele disse que não existe mais mocinhos no
    cinema, pensando bem realmente esse mocinho como antes em décadas passadas não há, houve uma transgressão social, e houve uma forma diferente de contar a nossa história
    ou seja da humanidade, por isso os diretores e roteiristas reformulam uma outra maneira. E as grandes produtoras antes não viam com bons olhos os filmes que eram de arte e de pouco retorno financeiro. E a crise financeira atual está mostrando para esses grandes que ou aceitam uma maneira mais barata criativa, ou perdem mercado.

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  4. O trabalho do ator... de toda a produção do filme é muito técnico, precisa ser pra poder sair do papel ou da cabeça. Criar e executar algo comum, sem originalidade, sem desafio vai transformando o cinema num trabalho rotineiro. Por isso é importante um roteirista e ou diretor fazer algo consistente para o ator, para ele não só crescer como profissional, mas crescer como pessoa e não fazer um mero trabalho rotineiro.

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  5. Não aprecio muito do trabalho dele como ator, a maioria das suas interpretações não são grande coisa, mesmo quando o filme é muito bom, tirando alguns poucos casos.
    Porém, concordo com boa parte do que ele falou na entrevista.
    Primeiro, a visão dele como ator e na construção de um personagem para um filme, de como respeita o diretor e os idealizadores, e principalmente o roteiro. Algo raro hoje em dia, onde muitos profissionais, mesmo que sem quase nenhuma experiência e não sendo ninguém ainda, querem impor sua vontade contra aquilo que está no roteiro e na mente do diretor e daqueles que estão produzindo o produto. Bom saber que ele pensa assim, muitas mais poderiam pensar também.
    Sobre o meio, não creio que esteja mudando tão rapidamente as produções de Hollywood, mas com certeza estão mudando. Mesmo que ainda existam as produções ruins e que só servem para ganhar dinheiro e levar o povo que não procura nada além de 2 horas de diversão ao cinema, existem cada vez mais boas produções e que não eram concebidas em Hollywood antigamente e que víamos apenas de forma independente ou em outros países. Isso é muito bom, ajuda o meio e produz cada vez mais bons trabalhos para vermos.

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  6. Mocinhos no cinema, pra Brad Pitt isso não existe mais, é coisa do passado que os diretores dependem dos atores para fazer seus filmes, com ele as coisas são mais suaves, ele não exige tanto e sabe como o cinema é no mercado, como ele respeita cada pessoa na produção, como o diretor que ele disse que é amigo da maioria dos diretores dos filmes que ele trabalha. Não gosta de personagem principal, estilo "mocinho" gosta de inovação, fazer com perfeição e diferente dos outros atores. Não pega qualquer papel, somente aqueles que ele se identifica e sabe que vai fazer com qualidade, ele estuda o roteiro, estuda o personagem e só depois que ele aprova a historia é que ele aceita o papel. Jessica Marques Vasconcelos-Cinema-4 período-Manhã.

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  7. Acho muito legal da parte de Brad Pitt, que ele esteja em busca de papeis mais ousados e fora do padrão, de galã, a carreira dele começou assim, mas de uns anos pra cá, ele tem se envolvido em projetos bastante incomuns pra ele. Talves trabalhar com Tarantino, tenha dado uma visão de onde ele poderia chegar com o seu talento, assim pegou papeis tão bem colocados, que conseguiu ser indicado ao oscar duas vezes neste ultimos anos.Acho importante a visão que ele tem da carreira dele em relação ao que os estúdios e diretores pedem dele, o fato dele ser adaptável ao roteiro e as orientações do diretor o faz crescer cada vez mais como ator. Pra mim ele é um ator bastante talentoso, e gosto das variações de papeis da carreira dele, só acho uma pena que ele não queira trabalhar em teatro, pois ele daria muito certo. Ele é um ator que pensa em como o mercado vai estar daqui alguns anos e sua própria vida também.

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  8. O ator diz que a saída das grandes indústrias é abrir as portas para diretores visionários, e é sempre com eles que ele prefere trabalhar. Para ele, deve-se seguir o que o diretor quer, com menos improvisações e seguindo mais o roteiro, ele também mostra preferência por papéis que fogem de padrão, pois para ele não vale a pena fazer o comum, o que todos já fazem.

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  9. Brad Pitt vêm em seus últimos trabalhos se desvencilhando dos papéis de mocinho e galã como objetivo de quebrar os paradigmas de que um rosto bonito não tem talento.
    Há grandeza em suas atuações, vista principalmente em seu trabalho com Tarantino "Bastardos Inglórios" com uma atuação bem caricata necessária ao papel.
    Brad Pitt é mais um desses casos de atores que tentam a todo custo quebrar imagens antes construídas, mas especificamente nos seus primeiros trabalho, como por exemplo "Entrevista com o Vampiro".
    Seu crescimento veio anos mais tarde após experiências vividas com grandes diretores, como por exemplo os irmãos Cohen e Terry Gilliam em "Os doze macacos", um dos melhores filmes do gênero ficção científica na minha opinião.
    A maturidade, experiência, responsabilidade e discrição do ator contribuem muito para o sucesso de um dos rostos mais conhecidos de Hollywood.

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  10. Interessante a entrevista e o ponto de vista do Brad Pitt quando se diz respeito a atuação, os métodos de diferentes diretores e a produções cinematográficas. Ele tem uma visão muito consciente do mercado e do processo artístico da construção do personagem.

    Fernanda de Sena

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  11. Naum sei se é bem pra esse lado a questão das produções hollywoodianas, ate mesmo por que o ritmo industrial pode não dar lugar as novas criações artísticas, mas achei interessante o ponto de vista de Pitt, e acho sim que a industria esta a procura de inovações..

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  12. Brad Pitt se mostrou interessado em filmes que saem das grandes produções hollywoodianas, querendo mais e mais desafios como ator. Isso é muito interessante, por que mostra que o cinema não industrial, aquela que não tem como objetivo grandes bilheterias, está cada vez mais ganhando espaço em Hollywood. Como ele mesmo disso "Só a inovação e a experimentação podem salvar a indústria"

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  13. Por mais que Brad Pitt busque inovar quanto as características dos personagens que aceita, ele tem consciência da tecnicidade que é o trabalho do ator no cinema e de uma certa submissão ao diretor. Como a atuação no cinema é, por vezes, fragmentada e não linear, ter essa consciência de um trabalho técnico sem a mesma total imersão como fazem os atores de teatro, contribui até mesmo para a logística industrial da produção de filmes.

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  14. Para mim, um bom ator tem que sair de sua zona de conforto e se aventurar no desafio de fazer papeis de diversos perfis. Por isso acho bacana o fato de Brad Pitt buscar fazer papeis que fujam do lugar comum.

    Achei muito interessante em sua entrevista a relação que ele faz da noção de arquitetura com sua interpretação, pois o entendimento de planejamento e noção de conjunto faz com que entenda melhor a proposta do personagem e do filme.

    Gostei muito também de sua declaração em que ele, para fazer o personagem, tem que aprovar a história e se sentir bem com o personagem, pois acredito que isso é essencial para o envolvimento do ator no projeto, caso contrário, seu trabalho sempre será um martírio e é lógico que vai afetar em sua forma de atuar. É claro que isso não tem nada a ver com o diretor, pois é escolha do ator, mas acho bacana trabalharmos apenas com coisas em que concorde com nossos valores e pensamentos.

    Por último, a parte que mais me agradou em sua entrevista foi em sua declaração de que o "cinema é resultado do projeto do diretor", pois isso me trouxe a consciência da responsabilidade que o diretor tem sobre sua interpretação. É o diretor que vai guiá-lo e dar direção ao perfil do personagem. Se o resultado da atuação do personagem ficou ruim, mais que culpa do ator, é do diretor.

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  15. Gosto muito do trabalho do Brad Pitt, ao contrário do que disseram acima, acho suas atuações sensacionais, em especial em "Os Doze Macacos". É bastante interessante a sua observação do que aprendeu com cada diretor, isso, com certeza, contribui com sua bagagem como ator mesmo sabendo que o diretor pode influenciar, ou podar, sua técnica ao interpretar o personagem.

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  16. Muito interessante um ator ter uma visão crítica do mercado. Gosto da versatilidade de atuação do Brad. A forma com que ele foi trabalhado em "Burn after reading" dos irmãos Coen foi sensacional, e, em "Árvore da vida" do Malick também. São esses tipos de mudanças que faz dele um bom ator, apesar de ainda ter cara de galã. -(risos).

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  17. Achei muito interessante a reportagem e principalmente a fala de Pitt quando diz que "Em geral, não crio nada, vou é na cola dos diretores. Não tenho essa pretensão de 'construir personagens'. O bom roteiro traz tudo o que você precisa para interpretar um papel". Acredito que atores com esse tipo de pensamento tendem a ser melhor aproveitados pelo diretor no set.

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  18. Acho interessante um dos mais requisitados atores hollywoodianos ter uma visão tão critica do mercado, dizer que
    procura nao pegar mais personagens estereotipados para interpretar e que procura sempre desafios.
    Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato dele separar muito bem a atuaçao teatral da de cinema, dizendo que nao faria atuaçao para teatro.
    Entrevista Interessante

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