segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Personagens da vida real





Por Livia Deodato - Revista Época - Ed. 586 - 08/08/2009


O novo filme de Steven Soderbergh anuncia as Confissões de uma garota de programa. Não há, no entanto, uma única cena de sexo. “Não foi proposital. Eu não tinha ideia de onde esse filme iria nos levar. Esperei para ver como ele se desenvolveria por si só”, diz em entrevista a ÉPOCA, por telefone, de Los Angeles.

Se um tema inicial foi pensado pelo diretor, o rumo tomado no longa foi quase que totalmente conduzido pelas experiências reais dos atores. Ou melhor, amadores. Mais uma vez, Soderbergh preferiu trabalhar com profissionais da vida – e não dos sets: Sasha Grey é estrela pornô e foi escolhida para viver a protagonista, Chelsea, e Chris Santos é um dedicado personal trainer no filme... e no mundo lá fora. Foi o que David Levien, um dos roteiristas de Confissões e aluno de Santos, garantiu a Soderbergh. “David o convidou para uma conversa comigo, e, quando o vi, pensei: ‘Ele é perfeito para o papel’.”

Sasha foi encontrada por meio de um artigo na Los Angeles Magazine, lido pelo diretor há três anos. “A forma como ela se expressava, as palavras que ela dizia... Tudo fugia dos clichês de uma garota de programa”, diz Soderbergh. “Ela é tão ambiciosa quanto a personagem.”

Não houve ensaios para o filme, que retrata o dia a dia de uma prostituta de luxo. Foram somente 16 dias de filmagem sob o pedido: “Ajam como se não existissem câmeras”. Tudo na base do improviso. Soderbergh conta que são necessários pequenos truques para alcançar a naturalidade pretendida, como usar microfones por wireless, uma equipe enxuta e a liberdade de criação de cada um. “Deixei claro que gostaria de vê-los atuando como se estivessem vivendo. Não existia certo ou errado.”

A maioria das cenas foi filmada em apenas um take, o que explica o veloz processo de filmagem. A abordagem de temas como crise financeira e eleição americana foi espontânea, dado o mês de outubro de 2008. Um momento impagável é quando um cliente judeu tenta persuadir Chelsea a votar em McCain enquanto se despe, porque “o Estado de Israel não pode acabar”. Tudo foi natural, diz o diretor. “O momento financeiro era e ainda é crítico no país, e todos só queriam falar sobre dinheiro. Que é justamente do que trata todo o filme.”

Caramba, vai contra o que estamos discutindo nas aulas? O que vocês acham desse método?

16 comentários:

  1. Não vai de maneira alguma contra a nada que foi discutido, é simplesmente mais ma maneira diferente de fazer o cinema e preparar os atores.
    Fazer dessa forma, obrigatoriamente faz com que o diretor trabalhe com "não atores" ou pessoas quase sem experiência. Isso porque, se não fosse dessa forma, dificilmente ele conseguiria fazer com que os atores do filme fizessem tudo da maneira como ele queria, sem ensaios e sem maiores preparações. Eles iriam acabar pedindo por mais tempo para trabalhar o personagem e atrapalharia a espontaneidade que o diretor queria.
    É algo diferente de se fazer, ainda mais hoje em dia, mas é válido, apenas muito perigoso, já que o resultado final se tudo não for muito bem planejado e preparado para deixar os atores naturalmente no ponto "correto", pode ser muito ruim e totalmente anti-natural, perdendo justamente a naturalidade que ele queria.

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  2. Acho que isso interfere um pouco na valorização do ator e o trabalho empobrece porque os personágens ficam sem expressão e muitas vezes sem vida já que , querendo ou não , a câmera já quebra e deixa inibida qualquer pessoa , teve um jornalista (não lembro de qual matéria ) que tentou gravar uma rotina de uma família de circo , assim que ele colocou a câmera as pessoas começaram a ficar mais tímidas e já não faziam sua rotina com tanta expontaniedade a solução foi colocar um microfone escondido no alto e gravar somente os sons daquelas pessoas , sem a imágem o resultado foi maior do que o esperado. Por tanto a preparação do ator pode chegar mais próximo e deixar mais viva e enriquecida a cena deixando o resultado melhor do que se fosse sem preparação alguma.

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  3. Esse método não é nada novo. O diretor francês, Bresson, já trabalhava em seus filmes com não-atores, do qual ele chamava de "modelos". Para ele, isso poderia funcionar no filme como um “efeito de real”.
    Pelo que parece, isso é o que busca o diretor Steven Soderbergh. E a partir do momento que ele dá a livre interpretação para os "atores", a chance de buscar o resultado que ele quer de alcançar a naturalidade pretendida é mais fácil.

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  4. Bom como o Rafael já disse, este método Bressoniano usado por Steven Soderbergh é muito interessante e ao mesmo tempo muito perigoso. E o interessante que muitas das vezes é surpreendentes o resultado, como por outro lado pode ser um fracasso, mas de uma forma ou de outra acho que muitos produtos cinematográficos tem tido um reconhecimento do publico.

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  5. Não acredito que vai contra o que estamos estudando, mas simplesmente mostra um outro método de trabalhar com os atores (que é o objetivo da matéria). Assim como existe o método de Stanislavski (que trabalha com a construção do personagem), método de Brencht (método do "estranhamento"), também existe esse método da espontaneidade. Não é atoa que esse método foi intitulado como Bressoniano, pois o diretor Bresson gostava de trabalhar apenas com não atores, para trazer a reação mais natural do ser humano. As vezes, quando se trabalha com atores profissionais, fica difícil eles desvinculem da teatralidade. Então acredito, que para decidir qual método usar, primeiramente você precisa saber qual é a proposta do seu filme e qual reação você quer despertar no público.

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  6. Não vai contra, acredito que por serem profissionais em outras áreas em que não temos conhecimentos, deixar que os "atores" fiquem mais livre , pode sim facilitar para que fique mais natural possível. O diretor fez como Bresson, trabalhou com não atores e conseguiu trabalhar com eles. Acho que tudo é uma questão de saber definir e trabalhar de acordo com o que deseja.

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  7. Acredito que não vai contra o que estamos estudando, o que mais você fala em sala de aula é que cada diretor tem sua maneira de dirigir o ator, cada diretor gosta de uma forma e maneira diferente, então não ha maneiras erradas de direção, a somente jeitos diferentes de se trabalhar com os atores e suas atuações. Acho esse metodo bacana, mas muito arriscado e tem que ter muita sorte de achar pessoas que não vão se intimidar em frente as cameras e conseguir fazer com apenas 1 take de filmagem.
    Jessica Marques Vasconcelos. Cinema 4 Periodo.

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  8. Assisti ao filme e sinceramente achei incrível a atuação dos personagens! É claro que se estudarmos o filme em um contexto geral em um primeiro encontro com ele sentiremos péssimo e um pouco desconexo, mas afinal o que é um pouco mais desconexo do a própria vida destas mulheres? A escolha de usar não atores e de gerar um improviso foi único e criou uma grande marca no filme.
    Como as representações o tempo de produção também correu rapidamente, como se estivessem filmando a vida destas mulheres ali assim num estalar de dedos. A rapidez com que as mulheres de luxo se dão para desfazerem de seus "amados" clientes, é tão clara que podemos seguir junto aos takes e cortes. Na minha opinião não vai neim um pouco contra o que estudamos, é como se juntasse tudo que estudamos em um só lugar.

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  9. Acredito muito neste método, o improviso tende a passar um grau de realismo muito maior do que uma atuação ensaiada... cada ação tem uma reação espontânea. Doido para assistir o filme hehe

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  10. Como os "não-atores" tem, de certa forma, vivências parecidas com a dos personagens, o método do diretor foi deixá-los agir com espontaneidade, deixando assim que eles tivessem uma livre interpretação, e, dessa forma, se aproximando da naturalidade na atuação.

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  11. Não acredito que isso vá contra tudo que estudamos, mas como muitos disseram esse é só mais um método de direção de atores escolhido pelo diretor.
    Cada um tem liberdade pra criar o filme da melhor maneira que lhe convêm... E tudo é valido, cada projeto terá um método para ele, um que se enquadre melhor.
    Não tem como definir o que é certo ou errado.

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  12. Acho válido, estamos falando de direção de atores, e cada diretor tem o seu método de direção. este diretor não trabalha assim, mas para este filme resolveu uma dinâmica diferente porque o filme pedia, porque ele achou que fosse o melhor para o resultado. portanto existem vários modos de dirigir um ator. Há também o fato destes não serem atores profisionais, mas eles ja eram os personagens, técnicamente então não precisaria de direção, a técnica de usar um teke apenas também foi legal porque pega o momento mais natural, se estes takes se repetissem várias vezes ficaria mecânica. Enfiem acho muito legal este tipo de abordagem desde que seja necessário, como foi o caso deste filme, é interessante pois se obtém resultados diferentes.

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  13. Não vai contra o que estudamos, entretanto não parece que houve uma direção de atores tão complexa quanto dos outros métodos que estudamos. Provavelmente houve apenas marcações em momentos específicos. A proposta de Soderberg, entretanto poderia ter caído num filme documental, mas a direção e montagem fizeram o trabalho ficar com as características típicas do ficcional e contribuiu decisivamente para mostrar as atuações. Parece mais que ele dirigiu os atores na montagem. Isso é cinema...

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  14. Ir totalmente contra o que estudamos acho que não vai, seria um modo adaptado. Como as atrizes são pessoas que tiveram a vida parecida com as de suas personagens, elas teriam suas próprias experiências de vida para saber como reagir perante os acontecimentos na vida do personagem. Acho que a maior diferença entre os métodos seria que as atrizes não separariam, em hora alguma, a vida pessoal da vida do personagem.

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  15. Não iria totalmente contra tudo o que estudamos, as atries no filme tem uma experiência de vida maior e isso com certeza fica muito carregado na filme, mais realista e intenso. Em suma, elas sabem exatamente como reagir em determinas situações. Soderberg parece ter feito um realismo mais documental, mas a montagem e a edição do filme o classificaram na ficção. Ao meu ver, esse resultado também fica muito evidente após um trabalho da pós-produção.


    de: Andrew Rodrigo Santos de Oliveira

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  16. É um método bem diferente do estudado, mas não vai necessariamente contra. Na minha opinião é inclusive bem interessante, desafia os métodos conservadores já existentes e dá um passo à frente: coloca pessoas que já viveram as situações dos personagens para interpretá-los, criando assim um tipo de filme que talvez até possa ser classificado como "ficção-documental" ou "documentário fictício".
    Atualmente, várias séries de TV tomam esse rumo, principalmente as de comédia. É muito comum o roteirista ser também ator e inserir suas histórias de vida, ou situações bem semelhantes às que viveu; desse modo o produto ganha mais credibilidade, não apenas por ser uma história de "gente como a gente", mas também por ser feito por quem mais entende do que está falando.

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